• Danielle Lins

Independência, vitalidade e justiça correndo nas veias

Atualizado: Jan 30

Bem a vontade no jardim de casa, drª Iara gosta de escrever poemas e, em breve, vai lançar o segundo livro. Crédito: Diêgo Albuquerque Fotografia

“Não vivi a vida, eu briguei com a vida.” Esta frase retrata fielmente a personalidade forte de Maria Iara Portela da Cruz Gouveia, chamada de drª Iara, uma das principais dentistas e advogadas de Vitória de Santo Antão. “Na classe mais humilde eu sou considerada um deus, na classe média sou a mulher que quebrou paradigmas. Na verdade sou polêmica e contestadora, por isso me encontrei no Direito, foi um renascimento, eu gosto do contraditório do Direito. É como dizem: dou um boi para não entrar em uma briga e uma boiada para não sair”, declara.


De família humilde, drª Iara, é natural de Alagoas e morou muito tempo na Usina Uruba, onde o pai era operário. Aos 12 anos de idade perdeu o pai e aos 22 a mãe, precisou criar o irmão de 16 anos. “Minha mãe ainda viva, eu já tinha terminado a faculdade de Odontologia. No primeiro ano do curso eu fui Miss Universitária. Nessa área eu só me encantei por cirurgia, embora tenha exercido 30 anos. Ensinei Odontologia em Caruaru, com 25 anos de idade. Depois consegui trabalhar no Hospital da Restauração fazendo cirurgia, detalha”.


Drª Iara foi a única mulher diretora do antigo INAMPS de Vitória de Santo Antão por oito anos, a primeira mulher dentista do Hospital João Murilo, ensinou Biologia nos colégios municipais e estaduais da cidade, além de Direitos Humanos na FACOL. “Quando fui dirigir o INAMPS encontrei uma estrutura viciada, acabei com a história de vender ficha e fiz acordo com os médicos para atender além de 16 pessoas e contemplar os moradores da zona rural. Com o bom funcionamento do INAMPS ganhei o Título de Cidadã Vitoriense”, relembra.


Perto de se aposentar aos 48 anos, decidiu prestar vestibular para Direito e passou, atuou durante 26 anos, deixando de advogar em 2017. “Pensava em me aposentar, mas tinha receio de não fazer nada. Apostei uma grade de cerveja com os meus alunos que iria fazer vestibular com eles, passaria e eles não. Tive um susto quando vi o resultado, passei na UFPE com a minha filha, fomos colegas de turma. Em 1992, já com 55 anos, me formei, tive escritório há muito tempo na área criminal e atendia mais o público carente. Hoje as minhas quatro filhas fizeram Direito, minha neta de 26 anos também e o meu neto de 18 está cursando. Acho que a minha cabeça de doido influenciou todos eles”, brinca.


O envolvimento com a política veio por influência da família e fortaleceu ainda mais na faculdade onde integrou o diretório da instituição nos quatro anos de Odontologia, também representou a faculdade em congresso da UNE. “Sempre gostei de política, a família da minha mãe de Palmares era da política, e eu ajudava no tempo em que o voto era no papel. Quando pensei em me candidatar falei a Zé Augusto Férrer do PMDB, mas ele me mandou comprar um fogão e aprender a cozinhar. Isso me deu uma raiva tão grande que encontrei uma convenção do antigo PMB, me candidatei à vereadora e fui a mais votada. Foram quatro anos de briga com o prefeito que se elegeu na época. Presidi a Comissão de Inquérito que denunciou ao Ministério Público o desvio de dinheiro do presidente da Câmara quando assumiu a prefeitura”, relata.


Perto de completar 80 anos, quatro filhas e casada há 51 anos com o médico Silvio Gouveia, drª Iara é apreciadora da arte e da cultura, na casa onde vive há diversos quadros espalhados e esculturas. Carnavalesca, durante 15 anos presidiu o Clube Abanadores O Leão. Em breve, deve lançar o segundo livro “Retratos sem retoques”. “Gosto de escrever poemas, meu primeiro livro se chama “Simplesmente eu”. No segundo escrevi um poema em memória da minha mãe que se chama “Finados”. “Nesse Finados não lhe mando flores.. Não queimo velas.. Não repetirei o que faz por simples convenção.. Sua ausência me queima todo dia.. E a chama da saudade é uma agonia.. Perpetuada no meu coração...”, declama com fervor.


Independente e sem medo de lutar pelo que acredita, drª Iara sempre estudou com bolsa de estudos, até os 20 anos usou roupas doadas pelas professoras. “Essa minha vida de miserabilidade me deu uma percepção maior sobre fraternidade, o que muitos veem como caridade. Por essa fase de dificuldade que passei, graças a Deus, tive noção de fraternidade, essa indigência me comove muito, ajudo, mas não espero nenhum retorno”, garante.


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